
Amanhã, 18 de junho (quinta-feira), em São Paulo (SP), às 19h30, no Instituto Brasileiro de Teatro, acontece o lançamento do livro “Teatro aberto: escritos de um diretor”, organizado por Patrick Pessoa.
Aderbal Freire-Filho está no centro de “Teatro aberto: escritos de um diretor”, livro que percorre mais de 3 décadas de reflexões sobre teatro, política e criação artística. O volume reúne textos escritos pelo diretor ao longo de sua vida e oferece um amplo panorama do pensamento de um dos nomes mais importantes do teatro brasileiro.
Aderbal Freire-Filho foi também capa e conteúdo da edição 532 da Revista da SBAT.
A seleção foi organizada pelo filósofo, dramaturgo e crítico teatral Patrick Pessoa, um de seus principais interlocutores nos últimos anos, que assumiu a tarefa de reunir os escritos que refletem a multiplicidade da atuação de Aderbal na cultura teatral.
Dividido em cinco capítulos, o livro acompanha diferentes dimensões de sua trajetória. Em “Autorretratos”, textos escritos ao longo de três décadas percorrem memórias da infância em Fortaleza, reflexões sobre o ofício do diretor e considerações sobre o tempo e a finitude.
Já em “Obsessão brechtiana”, Aderbal discute a influência decisiva de Bertolt Brecht em sua formação artística e sua busca por uma síntese entre o registro épico e o dramático. Essa investigação encontra desdobramento em “O sonho de um teatro ilimitado: o romance-em-cena”, onde o diretor apresenta sua contribuição original para o teatro contemporâneo: a linguagem do romance-em-cena, explorada em montagens como A mulher carioca aos 22 anos, O que diz Molero e O púcaro búlgaro. O livro reúne ainda ensaios, traduções e intervenções críticas que revelam um Aderbal para quem leitura, crítica e criação eram práticas inseparáveis.
Na parte final, dedicada à dimensão política de sua atuação, os textos abordam experiências fundamentais de sua trajetória, como o Centro de Demolição e Construção do Espetáculo (CDCE), sua passagem pela Sociedade Brasileira de Autores Teatrais (SBAT), reflexões sobre políticas culturais e o papel do teatro na vida pública brasileira. O volume também registra iniciativas marcantes como o Teatro Poeira, criado ao lado de Marieta Severo e Andréa Beltrão, espaço que materializa sua concepção de um teatro vivo, crítico e aberto ao diálogo com o público.
Além da seleção de escritos, o livro traz prefácio de Marieta Severo, apresentação de Patrick Pessoa, uma carta inédita de Aderbal à atriz — reproduzida em fac-símile — e uma troca de cartas com José Celso Martinez Corrêa sobre diferentes modos de conceber o teatro. O texto de orelha é assinado por Eduardo Moreira, fundador do Grupo Galpão.
Ao acompanhar a progressão desses textos, o leitor percebe como a ideia de “teatro aberto” atravessa toda a obra de Aderbal Freire-Filho: primeiro como reflexão teórica e, por fim, como prática artística e política. O livro revela, assim, o pensamento e a trajetória de um artista que dedicou a vida a expandir as possibilidades do teatro brasileiro.
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Trechos:
“Objetivos: extrair teatro puro de um material estritamente literário, mostrar que o teatro, que tudo pode, o teatro ilimitado que renova a poética cênica, só não pode, precisamente, não poder se apropriar da palavra, não poder transformar a literatura em teatro.”
“Concentrando sua especificidade no jogo do ator, o teatro recobrou o potencial infinito da imaginação e o poder da convenção, e, por isso, cresceu como linguagem e possibilidades. Nasce, então, um paradoxo que posso formular assim: o teatro reduzido à parcela se amplia.”
Sobre o autor
Aderbal Freire-Filho nasceu em Fortaleza, em 1941. Participou de grupos de teatro amadores desde a adolescência, foi locutor da rádio Dragão do Mar e, em sua primeira tentativa de morar no Rio de Janeiro (1960-1962), trabalhou como técnico em prospecção de petróleo e vendedor de móveis de aço, até voltar para o Ceará e se formar em Direito. Em 1970, mudou-se definitivamente para o Rio de Janeiro, participando como ator e diretor de uma montagem de Diário de um Louco, de Nikolai Gogol, encenada dentro de um ônibus em movimento. Aderbal estreou na direção em 1972 com Flicts – Era Uma Vez Uma Cor, de Ziraldo. No mesmo ano, dirigiu O cordão umbilical, peça de estreia de Mario Prata e, em 1973, dirigiu Marília Pera no monólogo Apareceu a Margarida, de Roberto Athayde, seu primeiro grande sucesso. Ao longo da carreira atuou como diretor, ator e dramaturgo.
Criou o Centro de Demolição e Construção do Espetáculo (1989-2003), foi membro do Conselho Diretor do Festival Ibero-americano de Teatro, de Cádiz na Espanha, e coordenou a comissão que criou o Curso de Direção Teatral da UFRJ. Escreveu as peças Lampião, rei diabo do Brasil (1991), No verão de 1996 (1996), Xambudo (1998), Isabel (2000) e Depois do filme (2011). Entre suas traduções e adaptações publicadas ou encenadas estão Turandot ou o congresso dos intelectuais (1993), de Brecht; Luzes de Boemia (2000), de Valle-Inclán; Casa de boneca (2001), de Ibsen; Hamlet (2008) e Macbeth (2010), de Shakespeare; e Na selva da cidade (2011), também de Brecht. Nos anos de 1990, iniciou o projeto do que veio a ser chamado de romance-em-cena com o espetáculo A mulher carioca aos 22 anos, a partir do romance de João de Minas. Em seguida vieram O Que Diz Molero (2003), a partir do romance de Dinis Monteiro, e O púcaro Búlgaro (2006), a partir do romance dede Campos de Carvalho.
Em 2005, juntou-se às atrizes Marieta Severo e Andrea Beltrão, que inauguravam o Teatro Poeira, e dirigiu a peça de estreia do teatro, Sonata de Outono, a partir do filme de Ingmar Bergman. Ao longo dos anos dirigiu inúmeros trabalhos no Poeira, como As Centenárias, de Newton Moreno (2009), e a tragédia libanesa Incêndios (2013), de Wajdi Mouawad. Aderbal participou ativamente da curadoria e dos projetos reflexivos e formativos desenvolvidos no Poeira. Durante décadas, principalmente entre os anos de 1980 e 1990, Aderbal também esteve à frente de vários espetáculos do grupo uruguaio El Galpón, sediado em Montevidéu.Dentre os prêmios que recebeu estão o Prêmio Molière, em 1981; o Golfinho de Ouro, em 1984; o Prêmio Shell na categoria Especial, em 1992; o Prêmio Shell na categoria Direção, em 2002, 2003 e 2013; e o Prêmio APTR, em 2006.
Aderbal Freire-Filho consolidou-se como uma figura incontornável na historiografia da direção teatral brasileira, ocupando um lugar de destaque ao lado de nomes como Abdias Nascimento, Antunes Filho, José Celso Martinez Corrêa, Amir Haddad e Maria Clara Machado. Sua trajetória é marcada por uma rara capacidade de aliar o rigor intelectual à experimentação cênica. Sua atuação reafirmou o teatro como um espaço vivo de pensamento crítico e memória coletiva, tornando sua obra um pilar essencial para a compreensão da cena contemporânea no Brasil.
Aderbal faleceu em 2023, no Rio de Janeiro.
Sobre o organizador
Patrick Pessoa é doutor em filosofia pela UFRJ/ Universität Potsdam (Alemanha), com dois pós-doutorados em Estética e Filosofia da Arte (PUC-Rio, 2008; USP, 2015) e um pós-doutorado em Artes da Cena (UFRJ, 2024). É professor associado do Departamento de Filosofia da UFF e dos Programas de Pós-Graduação em Filosofia da UFF e em Artes da Cena da UFRJ. Também é dramaturgo, crítico teatral, curador do Festival de Teatro de Curitiba desde 2023 e do Festival Midrash de Teatro desde 2024. Como dramaturgo, colaborou com os diretores Aderbal Freire-Filho (Na selva das cidades, 2011); Malu Galli e Bel Garcia (Oréstia, 2012); Marcio Abreu (Nômades, 2014); Daniela Amorim (Labirinto, 2015); Jörgen Tjon A Fong (Invisível, 2016); Marco André Nunes (Mar de ressaca, 2016); Adriano Guimarães (O imortal, 2018); e Dani Lima e Raquel Karro (Quero ser Rabih Mroué, 2024). Como crítico teatral, colaborou regularmente com o jornal O Globo e a revista Questão de Crítica. Foi ainda jurado dos prêmios Shell-RJ, APTR e Questão de Crítica.
Publicou diversos ensaios de crítica literária, cinematográfica e teatral em revistas especializadas, além de sete livros: A segunda vida de Brás Cubas: A filosofia da arte de Machado de Assis (2008), finalista do Prêmio Jabuti de Teoria e Crítica Literária; A história da filosofia em 40 filmes (2013), Oréstia: Adaptação dramática (2013) e Labirinto (2017), os três em parceria com Alexandre Costa; Nômades (Cobogó, 2015), em parceria com Marcio Abreu; Dramaturgias da crítica (Cobogó, 2021) e Metamorfoses da crítica (Cobogó, 2025).
Ficha técnica
Título Teatro aberto: Escritos de um diretor
Autor Aderbal Freire-Filho
Organização Patrick Pessoa
Idioma Português
Número de páginas 424
Editora Cobogó
ISBN 978-65-5691-193-9
Capa Cubículo
Encadernação Brochura
Formato 15,5 x 22,5 cm
Ano de publicação 2026