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No Mês do Orgulho LGBT+ Peça recria o Julgamento de Lésbica pela Inquisição na Bahia do Século XVI

No Mês do Orgulho LGBT+ Peça recria o Julgamento de Lésbica pela Inquisição na Bahia do Século XVI: Filipa. Foto: Valéria Martins.
No Mês do Orgulho LGBT+ Peça recria o Julgamento de Lésbica pela Inquisição na Bahia do Século XVI: Filipa. Foto: Valéria Martins.

Volta à cena a peça que recria o julgamento da portuguesa Filipa de Sousa (1556-1600), acusada de “práticas nefandas” (lesbianismo) pela inquisição portuguesa na Bahia.

O texto é de Gabriela Amaral, a direção de Maria Clara Guim e a atuação de Waleska Arêas.

Filipa é reconhecida como uma das primeiras vítimas de homofobia no Brasil e um ícone do movimento LGBTQIAPN+ no país. Seu julgamento é considerado o primeiro caso de perseguição sexual e de condenação da prática de lesbianismo pelo Tribunal do Santo Ofício em terras de Vera Cruz.

Quem foi Filipa de Sousa — e por que sua história precisa ser contada agora?

FILIPA, espetáculo-solo da atriz Waleska Arêas, resgata a trajetória real de Filipa de Sousa (1556-1600), condenada pela Inquisição Portuguesa em 1592 por amar outras mulheres. Viúva, alfabetizada, apaixonada e ousada, Filipa foi humilhada, açoitada e degredada por “pecado nefando” — nome que o Santo Ofício dava ao “lesbianismo”.

Vinda do Algarve, Portugal, Filipa de Sousa, alfabetizada, fato extraordinário para a época, viajou para Salvador (BA) em data desconhecida. Trabalhava como costureira, teve dois maridos e não tinha filhos. Aos 35 anos, foi denunciada por Paula Siqueira, sua amante, numa espécie de delação premiada: pressionada pela descoberta em sua casa do livro “Diana”, de Jorge de Montemayor, proibido pela igreja, sobre as aventuras amorosas de duas pastoras, tornou-se a principal acusadora de Felipa, por assédio sexual e coação.

Filipa não escondeu do tribunal o seu amor pelas mulheres, afirmando que era natural e sem pecado. Revelou detalhes de seus romances, incluindo Paula Siqueira, com quem se relacionou por mais de 3 anos. Na época, das 29 mulheres acusadas de “lesbianismo” na Capitania da Bahia, 7 foram julgadas e condenadas, sendo Filipa Sousa a mais severamente punida, apesar de ter sido poupada da pena de morte na fogueira por os “seus actos sexuais não envolverem penetração”.

Filipa foi condenada ao açoite, prisão, pagamento de todas as custas e degredo perpétuo, enquanto Paula, sua acusadora, teve pena mais branda, condenada a apenas 6 dias de prisão e ao pagamento de 50 cruzados de multa e algumas penalidades espirituais.

A ATUALIDADE

“Este espetáculo me atravessou em um lugar muito sensível. Ao ler o processo de Filipa de Sousa, fui tomada por um medo antigo e por uma identificação que não consegui afastar. Estar em cena é a minha tentativa de dar corpo a esse encontro, de tocar feridas abertas e de dizer, mesmo com tremor, que existir e amar não deveriam exigir coragem.”, conta a atriz Waleska Arêas.

Mais de quatro séculos depois, sua história ecoa como símbolo da resistência lésbica e da luta LGBTQIAPN+ no Brasil e no mundo. A peça, para além de reverenciar o ícone, quer descobrir quem foi essa mulher por trás do julgamento, dos documentos e cartas de amor. A história de Filipa, depois de mais de 400 anos, ainda diz muito sobre a sociedade contemporânea, onde amar e expressar-se ainda são atos políticos.

SINOPSE

A ação se passa durante o julgamento de Filipa, em que a atriz Waleska Arêas dá vida a Felipa, seu inquisidor e a uma narradora.

A MONTAGEM

“Encenar a história de Filipa de Sousa hoje é uma urgência, pois nos convoca a refletir sobre violência, poder e apagamentos históricos. Este espetáculo também nasce do encontro com uma equipe dos sonhos, formada em sua maioria por mulheres, cuja presença, escuta e força criativa afirmam, no próprio processo de criação, outras formas possíveis de existir, trabalhar e contar histórias.”, celebra a diretora Maria Clara Guim.

Ao longo da ação, a atriz desenrola novelos de fios coloridos que vão sendo atados em diferentes ângulos às quatro extremidades do palco, mas também abandonados pela cena, como pontas soltas de uma história. A atriz atua com sotaque português ao dar vida à Filipa e seu inquisidor. O sotaque é deixado de lado quando assume o personagem de narradora.

MEMÓRIA, JUSTIÇA E DIVERSIDADE

“Me apaixonei por Filipa em 2000, graças a um pequeno verbete de um dicionário sobre mulheres no Brasil. O assunto virou uma obsessão para mim, que passei a devorar tudo sobre Filipa na intenção de decifrá-la. Foram 26 anos que amei silenciosamente esta mulher que amava mulheres. E teria guardado este amor só para mim não fossem estes tempos tão difíceis para nós, mulheres”.

“Ok. Talvez um pouco melhores dos que o da Inquisição que Filipa de Sousa enfrentou. Mas ainda assim difíceis. Contar a história de Filipa me pareceu urgente. Assim, minha história de amor virou texto. A história de Filipa – dentro e fora dos palcos – é uma história de amor em tempos difíceis. Porque amar é mesmo revolucionário.”, afirma a autora, Gabriela Amaral.

Desde 2019, a LGBTQIAfobia é crime no Brasil, com pena de 1 a 3 anos de prisão, sem fiança e imprescritível. Ainda assim, o Brasil segue como o país que mais mata pessoas LGBTQIAPN+ no mundo. Além disso, enfrenta altos índices de violência de gênero: segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, uma mulher sofre violência a cada quatro horas, e quase 50% já vivenciaram agressões físicas, sexuais ou psicológicas.

A luta organizada pelos direitos das mulheres e da população LGBTQIAPN+ no Brasil é recente, mas sua opressão tem raízes profundas. A Inquisição, entre os séculos IV e XVIII, perseguiu pessoas com crenças e práticas contrárias às da Igreja Católica, impondo repressão religiosa, política e sexual. A Igreja e o Estado também reprimiam o corpo feminino, tratando o desejo e o prazer das mulheres como demoníacos.

Nesse contexto, a história de Filipa de Sousa se torna ainda mais impactante. Condenada pela Inquisição em 1592, em Salvador, recusou-se a se submeter às regras do patriarcado e encorajou outras mulheres a fazerem o mesmo. Sua existência desafiava o que a Igreja via como ameaçador: prazer, inteligência, emoção e liberdade de espírito. Mesmo perseguida, Filipa continuava sendo um símbolo poderoso da resistência feminina e da luta pelos direitos das mulheres, lésbicas e não lésbicas.

FILIPA
REESTREIA: dia 05 de junho (6ªf), às 19h.
ONDE: Teatro do Centro Cultural da Justiça Federal – . Av. Rio Branco, 241 – Centro / Rio de Janeiro (RJ) – Tel: (21) 3261-2550.

HORÁRIOS: sextas e sábados às 19h, domingos às 18h.
INGRESSOS: R$ 50,00 e R$ 25,00 (meia) em www.sympla.com.br e na bilheteria 1h antes da sessão.
SYMPLA: https://www.sympla.com.br/evento/filipa-de-05-06-a-28-06-sextas-e-sabados-19h-domingos-18h/3443042
DURAÇÃO: 60 min.
GÊNERO: drama histórico.
CLASSIFICAÇÃO: 16 anos.
CAPACIDADE: 141 lugares.
ACESSIBILIDADE: sim.
TEMPORADA: até 28 de junho.
ATENÇÃO: devido aos jogos do Brasil pela Copa do Mundo, não haverá sessões nos dias 13 e 19 de junho. E nos dias 21 e 28 as sessões acontecerão às 16h e 18h.

FICHA TÉCNICA

Dramaturgia: Gabriela Amaral.
Direção: Maria Clara Guim.
Elenco: Waleska Arêas.
Cenário e Figurino: Andréa Renck.
Iluminação: Lara Cunha.
Trilha Original: Paula Leal.
Direção de Movimento: Daniela Cavanellas.
Visagismo: Alex Palmeira.
Fotografia: Valéria Martins.
Identidade Visual: Clarice Pamplona.
Gestão de Mídias Sociais: Fernanda Portella.
Produção Executiva: Tatjana Vereza.
Assessoria de Imprensa: JSPontes Comunicação – Stella Stephany e João Pontes.

GABRIELA AMARAL – autora

Autora de cinema, TV e Teatro, atuou como redatora em programas como “Cine Holliúdy”, “Sítio do Pica-Pau Amarelo” e “Malhação”, e em filmes como “Retrato Falado”, “Você Sabe Quem” e “O Mistério de Feiurinha”. Como roteirista-chefe, foi indicada ao 44th Emmy International na categoria série de comédia. Autora das peças teatrais “Apesar de Você”, “Testosterona”, “Tem Gente” e “Lorena Livre”. Também é coprodutora dos espetáculos “Bula Da Cumbuca” e “O Baterista”.

MARIA CLARA GUIM – diretora

Diretora, atriz, dramaturga e produtora cultural atuante no cinema, TV e teatro. Dirigiu os espetáculos “Cinco Sentidos”, “Recriar”, “Livre Arbítrio”, “Fator RH”, “Bonde”, “Bem Casados” e “Pontos de Vista”, além de filmes como “Lágrima na Roda”, “Subversivos” e “Em mãos” – este último vencedor do prêmio de Melhor Filme no Festival Luso-brasileiro de Santa Maria da Feira, em Portugal.

WALESKA ARÊAS – atriz

Atriz, dubladora e produtora teatral. Atuou nos espetáculos “Faça O Que Precisa Ser Feito”, “(In) Medeia”, “A Classe Media no Espelho”, “Apesar de Você”; na produção das peças “Que Boca Na Cena” e “Projeto Patro” e na pós-produção / dublagem e vozerio dos filmes “Medida Provisória”, “Minha Mãe É Uma Peça”, “A Vida Invisível” e “Uma Pitada de Sorte”.

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